Micélio, esporos e corpo frutífero
O cogumelo que vemos e comemos é apenas o ato final de uma saga que se desenrola no escuro. O que chamamos de cogumelo é apenas a estrutura reprodutiva do fungo, uma aparição breve e estratégica. Sua verdadeira essência está oculta — trata-se do micélio, uma intrincada rede subterrânea de filamentos (hifas), que absorve nutrientes e coloniza o ambiente com notável eficiência. Quando as condições de umidade e temperatura são ideais, o micélio concentra energia e faz emergir seu órgão reprodutivo, responsável por dispersar esporos e perpetuar o ciclo de vida. Os esporos são mais análogos aos espermatozoides e óvulos do reino animal do que às sementes que encontramos nos vegetais. Os fungos, na verdade, formam um reino à parte — o Reino Fungi — tão distinto do Reino Animal quanto Vegetal†.
O ciclo reprodutivo
A figura acima ilustra esse ciclo. Tudo começa com um esporo que, ao encontrar condições favoráveis, germina e produz uma hifa — um filamento microscópico. Essa hifa cresce, ramifica-se e forma o micélio. Quando duas hifas compatíveis se encontram, ocorre a **plasmogamia**: suas células se fundem, mas os núcleos permanecem separados. O fungo entra então na fase **dicariótica** — cada célula carrega dois núcleos distintos, um de cada “genitor”.
Essa fase pode durar meses ou anos, com o micélio expandindo-se silenciosamente pelo substrato. Quando as condições são propícias, ele concentra energia para formar o corpo frutífero — com seu **píleo** (chapéu), **estipe** (haste), **lamelas** e, em algumas espécies, **anel** e **volva**. É nas lamelas que ocorre a **cariogamia** (fusão dos dois núcleos, como em um casamento do espermatozóide e óvulo), que é logo seguida por uma **meiose** (divisão que reduz o DNA pela metade, como na formação dos espermatozoides e óvulos). Ou seja, é nas lamelas que acontece tanto a divisão como a fusão de DNA do fungo.Os esporos resultantes da meiosesão liberados pelo **basídio** — uma estrutura em forma de clava — através de pequenas projeções chamadas **esterigmas**. Cada esporo carrega uma combinação genética única, pronto para reiniciar o ciclo.
A figura mais didática que encontrei para descrever esse ciclo foi no Pinterest:

https://in.pinterest.com/pin/mycelium–60869032458716701/
Além da reprodução sexuada, os fungos podem se propagar por fragmentação: pedaços de micélio ou do próprio corpo frutífero, ao se destacarem, são capazes de colonizar novos substratos de forma independente — uma estratégia simples e eficaz de expansão, que é empregada na fungicultura.
Conceitos:
Corpo frutífero
– estrutura reprodutiva temporária visível
Micélio
– rede invisível e persistente
Esporos
– gera novas hifas com DNA parentais segregados
Basídio/Asco
– onde, afinal, acontece a recombinação genética
Fragmentação
– reprodução assexuada a partir de mudas de micélio ou corpo frutífero
Nem todo fungo é cogumelo
Os cogumelos que descrevemos pertencem ao filo **Basidiomycota** – daí o nome basidiomicetos, derivado do basídio. Mas o Reino Fungi é vasto. Os **Ascomycota** (ascomicetos) produzem esporos dentro de estruturas em forma de saco chamadas ascos. Este grupo inclui as leveduras usadas em pães e cervejas, o fungo *Penicillium* (de onde se extrai a penicilina), as trufas e cogumelos como as *Morchella*.
Existem ainda os **zigomicetos**, responsáveis pelo bolor negro do pão, e os **quitrídios**, fungos aquáticos primitivos cujos esporos possuem flagelos – os únicos fungos com células móveis.
Esta arquitetura dual – micélio exploratório subterrâneo e corpo frutífero reprodutivo – exemplifica a genialidade adaptativa dos fungos, permitindo sua sobrevivência em habitats desafiadores e abrindo caminhos promissores para aplicações biotecnológicas e nutricionais.
† Os 2 outros Reinos são reservados às bactérias (Monera) e protozoários (Protista)