Micorriza vem do grego: myco (fungo) e rhiza (raiz). O nome descreve com precisão o fenômeno — uma associação íntima entre fungos e raízes de plantas que constitui, talvez, a mais antiga aliança da Terra. Há mais de 450 milhões de anos, quando as primeiras plantas deixaram a água e colonizaram a terra firme, foram os fungos que as ajudaram a sobreviver num ambiente hostil e seco. Essa parceria nunca se desfez. Hoje, estima-se que mais de 90% das plantas terrestres dependam de micorrizas para prosperar.
O estômago da natureza
Diferente dos animais, que digerem o alimento dentro do corpo, os fungos fazem o oposto: secretam enzimas no ambiente e “digerem” o solo ao seu redor. É uma digestão externa. As hifas do micélio — de que falamos no artigo “Ciclo de Vida dos Cogumelos” — penetram a matéria orgânica e quebram moléculas complexas em nutrientes simples, prontos para absorção. O fungo funciona como o estômago da natureza que tudo liga.
E aqui está o pacto: a planta, através da fotossíntese, produz açúcares — mas não consegue extrair do solo minerais essenciais como fósforo e nitrogênio com eficiência. O fungo, por sua vez, é mestre em digerir o solo e capturar esses nutrientes — mas não faz fotossíntese. A solução? Troca. A planta cede até 30% dos açúcares que produz ao fungo; em retorno, recebe água e minerais que jamais alcançaria sozinha. Ambos prosperam.
A figura abaixo, que encontrei na página da American Society of Plant Biologists, é muito ilustrativa

Duas formas de se associar
Nem toda micorriza é igual. As ectomicorrizas envolvem a raiz por fora, formando uma bainha protetora sem penetrar as células vegetais. São típicas de árvores de florestas temperadas — carvalhos, pinheiros, bétulas — e produzem alguns dos cogumelos mais cobiçados da gastronomia: trufas, boletos e cantarelos.
Já as endomicorrizas (ou micorrizas arbusculares) penetram as células da raiz, formando estruturas ramificadas chamadas arbúsculos, onde ocorre a troca de nutrientes. Este tipo é mais antigo e mais comum — associa-se a cerca de 80% das plantas terrestres, incluindo a maioria das culturas agrícolas: trigo, milho, arroz, soja. Sem essas parcerias invisíveis, a agricultura como a conhecemos seria inviável.
A rede que conecta a floresta
O micélio não para na raiz de uma única planta. Ele se estende, ramifica e conecta indivíduos diferentes — às vezes de espécies distintas. Forma-se assim uma rede subterrânea que alguns cientistas apelidaram de Wood Wide Web, a “internet das florestas“.
Por essa rede, árvores adultas transferem nutrientes para plântulas na sombra, que ainda não conseguem fotossintetizar o suficiente. Há evidências de que plantas atacadas por pragas enviam sinais químicos através do micélio, alertando vizinhas para ativarem defesas. Os fungos, nesse contexto, funcionam como verdadeiros arquitetos da reciclagem e regeneração — não apenas nutrindo indivíduos, mas sustentando ecossistemas inteiros.
Paul Stamets e a micorremediação
Poucos fizeram tanto para traduzir o mundo dos fungos ao grande público quanto Paul Stamets. Micólogo, autor, empresário e ativista, Stamets dedicou décadas a estudar e divulgar o potencial dos fungos — da medicina à descontaminação ambiental. Suas palestras e livros, como Mycelium Running, transformaram-no numa espécie de embaixador do Reino Fungi.
Nessa matéria da CBC do Canadá você encontra uma foto do mago segurando um Agarizon:

Entre suas contribuições mais notáveis está a patente “Delivery systems for mycotechnologies, mycofiltration and mycoremediation”, que descreve sistemas de entrega para micotecnologias, micofiltração e micorremediação. A ideia central: usar o micélio como filtro vivo. Fungos são capazes de degradar hidrocarbonetos do petróleo, absorver metais pesados e até eliminar bactérias patogênicas da água. Em experimentos, Stamets demonstrou que montes de solo contaminado com óleo diesel, inoculados com micélio, tornaram-se férteis em semanas — enquanto pilhas de controle permaneceram tóxicas. O estômago da natureza, mais uma vez, digerindo o que parecia indigesto.
Esta capacidade de remediar ambientes degradados abre caminhos promissores. Solos contaminados por derramamentos, água poluída por efluentes industriais, resíduos agrícolas — tudo pode, em tese, ser processado pelo micélio. A simbiose que sustenta florestas pode, também, ajudar a regenerar o que destruímos.
