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20 de março 2026

Neuroplasticidade — O Cérebro Que Se Reconstrói 2️⃣

por: Francisco Tancredi
Segundo artigo da série. Apresenta os três tipos de plasticidade cerebral — sináptica (trilhas na floresta), estrutural (neurogênese adulta) e funcional (reorganização após lesões) — com metáforas acessíveis e exemplos concretos, incluindo o caso de Jill Bolte Taylor.

Neste post você verá:

Parte 2 de 4: Três formas de mudar

No artigo anterior, derrubamos um mito: o cérebro adulto não é fixo. Ele muda. A vida inteira.

Mas como, exatamente? Dizer que o cérebro “se remodela” é vago. A neurociência identificou três caminhos distintos — três formas pelas quais o cérebro se transforma em resposta ao que vivemos. Cada uma opera em escala diferente. E cada uma pode ser ativada.

1. Plasticidade sináptica: trilhas na floresta

Imagine uma floresta densa, sem caminhos marcados. Você caminha por ela uma vez e deixa um rastro tênue. Caminha de novo, no mesmo trajeto. E de novo. A cada passagem, a trilha fica mais larga, mais firme, mais fácil de percorrer.

É assim que funcionam as sinapses — os pontos de contato entre neurônios. Quando dois neurônios disparam juntos repetidamente, a conexão entre eles se fortalece. Isso se chama potenciação de longo prazo (LTP, na sigla em inglês). É o mecanismo biológico da aprendizagem e da memória.

O inverso também vale. Conexões que deixam de ser usadas enfraquecem e eventualmente desaparecem — como trilhas que o mato engole. É por isso que habilidades não praticadas se perdem. Não porque os neurônios morrem, mas porque a trilha entre eles fecha.

Cada vez que você aprende algo, pratica um instrumento ou memoriza um caminho, está fortalecendo sinapses. Cada vez que abandona um hábito, está deixando uma trilha fechar.

2. Plasticidade estrutural: construção nova

A plasticidade sináptica fortalece conexões existentes. A plasticidade estrutural vai além — cria estrutura nova.

Neurônios podem desenvolver novos dendritos — as ramificações que recebem sinais de outros neurônios. Quanto mais dendritos, mais conexões possíveis. É como um aeroporto que constrói novas pistas de pouso: aumenta a capacidade de receber e enviar informações.

E há algo ainda mais surpreendente: em certas regiões do cérebro — sobretudo no hipocampo —, neurônios inteiramente novos continuam nascendo na vida adulta. Esse processo, chamado neurogênese adulta, é exatamente o que Peter Eriksson demonstrou em 1998 e que derrubou o dogma de Cajal que discutimos na Parte 1.

Neurogênese adulta não é ficção científica. É biologia confirmada. E é estimulada por exercício físico, aprendizado e certos compostos bioativos — assuntos que voltarão nos próximos artigos desta série.

3. Plasticidade funcional: o desvio inteligente

Das três, essa é a que mais desafia a intuição.

Quando uma região do cérebro é danificada — por um AVC, um trauma, uma doença —, outras regiões podem assumir funções que não eram originalmente suas. O cérebro redireciona o tráfego.

O exemplo mais estudado é o da visão. Pessoas que perdem a visão desde cedo apresentam ativação do córtex visual — a área que “deveria” processar imagens — durante a leitura em Braille. O cérebro, privado de input visual, reatribuiu aquele espaço ao tato.

É exatamente isso que aconteceu com a Dra. Jill Bolte Taylor, cuja história contamos na Parte 1. Depois do AVC que destruiu grande parte do hemisfério esquerdo, ela reconstruiu funções de linguagem e lógica ao longo de oito anos — em parte porque outras áreas do cérebro assumiram o trabalho.

O que une os três caminhos

Trilhas que se fortalecem. Estruturas que se criam. Funções que se redistribuem. Três escalas diferentes, um princípio comum: o cérebro responde ao que você faz com ele.

Isso vale para o bem — aprendizado, exercício, estímulos novos — e para o mal. Porque se o cérebro muda em resposta ao uso, também muda em resposta ao desuso. Ao estresse. Ao abandono.

O cérebro tem três formas de se remodelar. Você pode ativar as três. Mas também pode sabotar as três.

Se o cérebro pode se reconstruir, por que tantas pessoas perdem memória com a idade? Porque algo está sabotando o processo — e provavelmente você está exposto.

Na Parte 3, vamos falar das coisas que minam a plasticidade.

Referências:

1. Miranda M, et al. Brain-Derived Neurotrophic Factor: A Key Molecule for Memory in the Healthy and the Pathological Brain. Frontiers in Cellular Neuroscience. 2019;13:363.

2. Eriksson PS, et al. Neurogenesis in the adult human hippocampus. Nature Medicine. 1998;4(11):1313-1317.

3. Gazerani P. The neuroplastic brain: current breakthroughs and emerging frontiers. Brain Research. 2025;1858:149643.

4. Maguire EA, et al. Navigation-related structural change in the hippocampi of taxi drivers. PNAS. 2000;97(8):4398-4403.

Este artigo é o segundo da série “O Cérebro Que Se Reconstrói”. Leia a Parte 1: O órgão que ninguém achava que se regenerava.

Dr. Francisco Tancredi — Médico Psiquiatra | CRM-SP 13.661

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