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17 de março 2026

Neuroplasticidade — O Cérebro Que Se Reconstrói 1️⃣

por: Francisco Tancredi
Primeiro artigo da série 'O Cérebro Que Se Reconstrói'. Derruba o dogma de Cajal sobre a imutabilidade do cérebro adulto, apresenta o conceito de neuroplasticidade (cunhado por Konorski em 1948) e conta a história da neurocientista Jill Bolte Taylor, que documentou a própria recuperação de um AVC.

Neste post você verá:

Parte 1 de 4: O órgão que ninguém achava que se regenerava

Corte a pele. Em dias, ela se fecha. Quebre um osso. Em semanas, ele se consolida. Doe parte do fígado. Em meses, ele se reconstrói.

Agora pergunte a qualquer pessoa: o cérebro se regenera?

A resposta mais comum é “não”. E durante quase um século, a ciência concordou.

Santiago Ramón y Cajal — Nobel de Medicina, pai da neuroanatomia moderna — escreveu em 1928 uma sentença que virou dogma: “No cérebro adulto, as vias nervosas são fixas e imutáveis. Tudo pode morrer, nada pode se regenerar.”

O curioso é que o próprio Cajal, décadas antes, havia descrito sinais de “plasticidade neuronal” em seus estudos. Mas abandonou a ideia. Prêmios Nobel não tornam ninguém imune ao erro — e até os maiores cientistas, às vezes, recuam diante das próprias descobertas.

Cajal desenhou o cérebro como ninguém antes dele. Mas concluiu, cedo demais, que o que desenhou não podia se regenerar

O dogma que durou setenta anos

A ideia de que o cérebro adulto é estático dominou a neurociência por quase todo o século XX. Não por falta de indícios contrários — mas porque questioná-la era, academicamente, suicídio. Quem sugeria que neurônios novos surgiam no cérebro adulto era ignorado ou ridicularizado.

Até que as evidências se tornaram impossíveis de ignorar.

Em 1998, Peter Eriksson demonstrou que o hipocampo humano — a região essencial para a formação de memórias — produz neurônios novos ao longo de toda a vida adulta. Não muitos. Não rápido. Mas produz.

O cérebro não era uma máquina montada na infância e condenada à deterioração. Era um órgão vivo, capaz de se remodelar.

A palavra para isso — neuroplasticidade — já existia. Fora cunhada em 1948 pelo neurocientista polonês Jerzy Konorski. Mas levou meio século para que a ciência aceitasse o que o termo descrevia.

O que é neuroplasticidade

O termo une neuro (sistema nervoso) e plasticidade (capacidade de se moldar). Significa que o cérebro muda em resposta à experiência — ao que você faz, ao que aprende, ao que come, ao que sofre.

Não é metáfora. É biologia.

Conexões entre neurônios se fortalecem quando usadas e se enfraquecem quando abandonadas. Novos neurônios surgem em áreas específicas. Regiões inteiras podem assumir funções de outras.

É por isso que um músico tem o córtex auditivo mais espesso. É por isso que um taxista de Londres tem o hipocampo maior que a média. E é por isso que, depois de um AVC, uma pessoa pode reaprender a falar — usando partes do cérebro que originalmente não tinham essa função.

Uma neurocientista no próprio laboratório

Na manhã de 10 de dezembro de 1996, a neurocientista Jill Bolte Taylor — pesquisadora de Harvard, especialista em neuroanatomia — acordou com uma dor aguda atrás do olho esquerdo. Em minutos, percebeu o que estava acontecendo: um AVC hemorrágico massivo no hemisfério esquerdo do seu cérebro.

Perdeu a fala. A lógica. A noção de onde seu corpo terminava e o mundo começava. Mas, diferentemente de qualquer outro paciente, ela sabia exatamente o que cada sintoma significava.

A recuperação levou oito anos. Jill documentou cada etapa — e a história que ela conta no seu livro My Stroke of Insight é, provavelmente, a demonstração mais visceral do que a neuroplasticidade pode fazer. Não mágica. Não milagre. Biologia — lenta, exigente, real.

Se o assunto neuroplasticidade está lhe despertando interesse, leia a incrível história da Dra. Jill, narrada por ela mesma. E se ainda não assistiu à palestra TED dela — com mais de 30 milhões de visualizações —, vale muito a pena.

O que isso muda

Seu cérebro não é uma máquina. É um órgão vivo que se reconstrói todos os dias.

Na psiquiatria, vejo isso de perto. Pacientes que passaram anos sob estresse crônico e apresentam dificuldades cognitivas mensuráveis. E pacientes que, com as intervenções certas, recuperam funções que pareciam perdidas. O cérebro responde. Sempre responde.

A pergunta que importa não é se ele muda. É como.

Seu cérebro muda. Mas de que formas, exatamente? Existem três caminhos — e um deles desafia o que se ensinou em toda faculdade de medicina até vinte anos atrás.

No próximo artigo, vamos conhecê-los.

Referências:

1. Ramón y Cajal S. Degeneration and Regeneration of the Nervous System. 1928.

2. Eriksson PS, et al. Neurogenesis in the adult human hippocampus. Nature Medicine. 1998;4(11):1313-1317.

3. Gazerani P. The neuroplastic brain: current breakthroughs and emerging frontiers. Brain Research 2025;1858:149643.

4. Marzola P, et al. Exploring the Role of Neuroplasticity in Development, Aging, and Neurodegeneration. Brain Sciences. 2023;13(12):1610.

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Este artigo é o primeiro da série “O Cérebro Que Se Reconstrói”. Veja também: “Cogumelos Medicinais: Superfood e Extratos” e “BDNF e NGF: os hormônios que seu cérebro produz”.

Dr. Francisco Tancredi — Médico Psiquiatra | CRM-SP 13.661

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